O longa-metragem de ficção “Peça para Solidão Solo”, rodado em São José, poderia ter sido apenas mais um curta-metragem financiado por edital municipal. Mas a ousadia do diretor Jefferson Bittencourt e de sua equipe transformou a limitação de recursos em oportunidade criativa. O resultado é um filme com duração de 93 minutos, rodado em tempo recorde, com orçamento modesto e que já coleciona 18 prêmios em festivais internacionais.
A aposta ousada
Selecionado pela Lei Paulo Gustavo na esfera municipal, o projeto previa inicialmente um curta-metragem. Mas a equipe da Persona Pictures decidiu arriscar: reestruturou o roteiro e ampliou a narrativa para um longa. “Foi uma empreitada bem complicada, mas a gente se arriscou. O edital exigia que fosse rodado em São José e adaptamos toda a história para as locações da cidade”, lembra Bittencourt.
O orçamento era de apenas R$ 60 mil, valor muito abaixo do praticado em editais estaduais, que chegam a R$ 3 milhões. A solução foi dividir custos, investir recursos próprios e até comprar equipamentos para evitar locações. A filmagem aconteceu em 13 diárias, sempre das 13h às 21h, com algumas exceções.
Improviso como linguagem
Com roteiro enxuto e poucas falas, o longa ganhou corpo a partir da improvisação dos atores, todos com sólida formação teatral. Muitas cenas nasceram no momento da gravação, moldadas pelo espaço e pela interação entre elenco e direção.
“O filme tem cenas muito descritivas, e a partir disso a gente criava durante a locação. O improviso foi essencial, e os atores trouxeram uma entrega muito autêntica”, conta o diretor. Essa escolha estética, mais próxima da linguagem teatral, ajudou a criar a atmosfera de sonho e memória que sustenta a trama de um homem em busca de recomeço.
São José como protagonista
Embora sediado em Florianópolis, no bairro Estreito, o Centro Cultural Camarim — comandado por Bittencourt e sua esposa — mantém forte vínculo com São José, de onde vem boa parte dos 130 alunos e do público de espetáculos. A cidade acabou não apenas financiando, mas também protagonizando o longa, que utilizou pontos urbanos icônicos como cenários. “Foi especial filmar em São José. A proximidade já existe pelo nosso trabalho no Camarim, mas ver a cidade ganhar essa projeção no cinema é algo inédito”, afirma.
O resultado dessa ousadia surpreendeu. Em apenas oito meses de circulação restrita a mostras, o longa foi exibido em Alemanha, Argentina, Estados Unidos, Tailândia, Romênia, Índia e Austrália, acumulando 18 prêmios e quatro menções honrosas. Entre os reconhecimentos, estão melhor filme, melhor direção, melhor atriz, melhor ator, melhor roteiro original e melhor trilha sonora.
Para Bittencourt, a repercussão mostra que é possível fazer cinema competitivo mesmo fora do eixo Rio-São Paulo. “O mais motivador é ver que conseguimos essa resposta com tão pouco recurso. Isso nos dá fôlego para os próximos projetos e mostra que a nossa linguagem tem espaço”, avalia o diretor.
O caminho até o público
Apesar das conquistas, os moradores de São José ainda terão que esperar um pouco para ver o filme em cartaz. Como a maioria dos festivais exige ineditismo, a obra deve circular nesse circuito até meados de 2026. Depois disso, estão previstas exibições abertas em São José, Florianópolis e outras cidades brasileiras.
“Já fizemos sessões pontuais em espaços como o Teatro do Saem (Studio das Artes Eisenhower Moreno) e o Auditório do Melão, mas a ideia é retomar as exibições públicas assim que o ciclo de festivais terminar. Provavelmente o filme também será exibido no nosso Cineclube Camarim”, adianta o diretor.
Mais que um filme
Mais do que uma conquista artística, Peça para Solidão Solo simboliza a capacidade de produção cultural independente em Santa Catarina. Mostra que, com criatividade, parcerias e ousadia, é possível romper barreiras financeiras e projetar uma cidade inteira no cenário internacional.
O trailer está disponível no YouTube: clique aqui.
Ficha técnica
Estado: Santa Catarina
Ano de Produção: 2024
Duração: 93 minutos
Produção: Janete Bittencourt dos Santos e Marcelo Aguiar dos Santos por Camarim Escola de Arte
Distribuidora: Persona Pictures
Primeira Direção de longa-metragem: Jefferson Bittencourt
Direção de Fotografia: Jefferson Bittencourt e Emerson Cassanelli
Roteiro Original: Jefferson Bittencourt
Direção de Arte: Leandro Costa
Figurino: Luciana Nauar
Maquiagem: Bruno Bittencourt
Montagem: Roberto Santos
Som Direto: Cristian Gonçalves
Edição Sonora: Roberto Santos
Mixagem: Roberto Santos
Trilha Sonora: Jefferson Bittencourt
Atriz: Giselle Kincheski como Mulher
Ator: Luiz Franco como Homem



Créditos das fotos: Betina Franco


